quinta-feira, 26 de dezembro de 2019

Vamos falar de... (VideoGame)


Eu sempre falo que não lembro nada da minha vida antes de possuir um controle de videogame em mãos. Tento recordar minha infância prévia aos 5 anos (Momento em que tive meu primeiro contato com um megadrive) mas toda a minha memória parece estar atada aquele momento mágico de contato com o console.

Por sorte tive acesso a jogos muito cedo, minha geração foi a desbravadora dos 16 bits, uma geração de jogadores que cansou de implorar para os pais para alugar uma fita na sexta-feira para poder ficar até segunda, crianças que ainda hoje (Em torno de 30 anos) amam relembrar estes momentos.

Engraçado, sem nostalgia excessiva, mas eu lembro de sair da escola, da primeira série do fundamental, e minha mãe me levar para uma locadora de videogames perto de casa, me deixando sozinho com um monte de crianças, adolescentes e adultos, sem receio, um pouco imprudente eu diria, mas era outra época. Era a locadora do Flávio e da Fran, por coincidência hoje eu trabalho com o filho deles.

Lembro que esta era a locadora do bairro, todos iam lá. O Playstation tinha acabado de ser lançado, minha memória trás dezenas de pessoas em pé enquanto Flávio jogava Resident Evil, vidrados nos zumbis, monstros e nos enigmas do jogo, todos sedentos por um momento de ação em 3D, completamente novo para nós. Eu adorava, estava entre estas dezenas de crianças, adolescentes e adultos, cada vitória de Flávio era uma vitória de todos, vibrávamos e nos divertíamos, uma memória incrível e que guardo com muito carinho.

Curioso, estes dias estava conversando com minha mãe exatamente sobre isso, ela horrorizada dizendo que não acreditava como podia ter sido tão condescendente, me deixando sozinho no meio de adultos com apenas 7 anos, mas por sorte nunca aconteceu nada de ruim, a locadora era bem perto de casa, conhecíamos todo mundo, mas existia um ponto de drogas uma quadra dali. Na verdade, anos depois, descobri que alguns traficantes jogavam ali, pensando agora, isso era bom, eles protegiam o lugar do jeito deles.

Pena que esta "segurança" não pode mais ser vivida, não estou falando que antes era melhor, mais seguro ou nada assim, não sou um saudosista extremo, mas não tínhamos acesso a tanta informação, minha mãe tinha 26 anos, não tinha noção alguma do mundo, para ela tudo era seguro naquele bairro que ela foi criada desde que nasceu, eram tempos inocentes e inconsequentes.

Falo isso porque tenho um irmão que começou a jogar também muito cedo, em torno dos 8 anos, agora ele tem 12. Meu irmão cresceu em outro bairro, mais próximo do centro, a rua onde moramos é central, muito movimento, os vizinhos são semi desconhecidos, a locadora mais próxima (Não que ele vá nela) fica a mais de um Km, mas ele nunca foi lá, eu a conheço de, literalmente, quase duas décadas atrás.

Meu irmão iniciou no Xbox One, com MOBAs, BATTLE ROYALES, GAMEPASS e todas as vantagens da internet de alta velocidade, ele ganhou seu primeiro videogame e já possuía mais de 200 jogos, durante todo o período que eu tive meu megadrive tive apenas 4 fitas, Sonic e Knuckles, Sunsite Riders, Mortal Kombat 3 e Golden Axe, o resto foi tudo alugado durante os 4 anos que ele esteve comigo, substituído por um Playstation em 1998.

Mas voltando ao assunto do meu irmão e da segurança, ele nunca precisou sair de casa para jogar, seu acesso foi pleno desde o primeiro dia, minha mãe não precisou se preocupar em levá-lo a locadora, a comprar jogos físicos, a buscá-los horas depois, como aconteceu centenas de vezes comigo. Ele joga também muito mais do que eu, possui mais interação, dezenas de amigos online, se diverte e fica irritado, acompanha streams e canais de Youtube que o ajudam em tudo, o invejo e ao mesmo tempo não, comigo eram revistas compradas nas bancas, livros de dicas e cheats, meses para descobrir que um jogo foi lançado.

Estes dias, enquanto conversava com minha mãe sobre este período, perguntei para ela como ela se sentia agora, com toda a segurança de casa para ele jogar a vontade, sem receios e preocupações, ela me respondeu, agora sim de forma muito saudosista: - "Eram outros tempos, hoje eu não deixaria você ou ele sozinhos entre adultos". Concordo com minha mãe, agora ela ouve, vê e tem informação plena e constante em seu celular, não que ela seja uma usuária constante de tecnologia, mas o básico ela sabe mexer, o que já a assusta muito. Diversas vezes ela corre até mim com uma notícia escabrosa, perguntando se é verdade já que, para ela, eu "domino" a internet, procuro a notícia, mostro para ela a fonte original e ela sai aliviada quando descobre que é uma FakeNews, alias, isso ajudou muito para que ano passado minha mãe e boa parte da minha família entendesse as ações do atual presidente do Brasil, por sorte nenhum de nós votou nele.

Divaguei um pouco, voltando ao texto, recordo ainda que nesta primeira geração, fora da locadora, eu jogava muito sozinho, sempre tive amigos, mas parecia que a experiência pessoal era mais interessante, talvez por isso ainda hoje jogo muito pouco online. Sentar no chão e ligar meu megadrive era uma sensação única, joguei o mesmo jogo centenas de vezes, os mesmos 4 jogos, sabia de cor cada um deles, não me cansava, o fator replay era impressionante, isso ou apenas não tinha opções a mais. Meu irmão, por outro lado, só consegue jogar o mesmo jogos muitas vezes se for um MOBA ou um BATTLE ROYALE, não estou criticando, mas é verdade.

A maior comparação que faço entre eu como jogador e meu irmão é que, apesar de 20 anos de diferença e 5 gerações de consoles, é que ambos amamos isso demais, eu vejo o prazer que ele tem quando vem me contar sobre a nova arma de um jogo, sobre os detalhes de uma atualização, sobre sua vitória em determinado game, compartilho o prazer que ele sente nessas conversas e sei que ele me entende talvez tanto quanto eu o entendo quando seu olhar brilha ao ver que eu entendo a felicidade que ele está sentindo e vice versa.

Mesmo que meu irmão não tenha precisado sair de casa para jogar eu sei que sua geração não perdeu muita coisa, pelo contrário, ganhou muito mais do que a minha geração, sou agradecido por isso, sempre quis que ele crescesse como um jogador, eu sei o quanto isso fez bem para mim e queria que ele compartilhasse, quase um sentimento paternal eu diria, mas considerando a diferença de idade eu não acho que isso seja tão estranho. Não possuo filhos, nem pretendo para falar a verdade, mas sinto no meu irmão um carinho a mais, um carinho de amigos, uma comunhão fraternal e levemente paternal que tenho muito gosto em manter.

Este texto foi menos ácido, todos deveriam ser venenosos, com alguma crítica no meio, mas enquanto escrevia lembrei que games nunca me deixaram triste, a não ser quando não podia tê-los, pelo contrário, sempre me senti feliz e tenho convicção que praticamente todos os jogadores compartilham desse sentimento de alegria e prazer que os videogames nos proporcionam, principalmente nosso primeiro contato, como comparei aqui. Por isso, deixei a acidez de lado para dar lugar a alegria, ao companheirismo e para relatar que indiferente a distancia de gerações os games sempre nos unem.

Droga... Voltaram meu pagamento do Remake de FF7, acho que meu cartão estourou, vou lá parcelar, um abraço.

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