quinta-feira, 26 de dezembro de 2019

Vamos falar de... (Namoro)


Insegurança.

Talvez este seja o sentimento mais presente na vida amorosa dx Nerd. Ele pode partir de diversos ângulos; seja pelo corpo, pelo psicológico ou pelo social, todos eles atrapalham muito o processo de entendimento em relação ao outro, em grande parte das vezes torna-se fator decisivo para um término.

A relação interpessoal, principalmente o sexo, torna-se um tabu quando a maior parte da nossa vida somos tachados como párias frente a uma sociedade que exalta o corpo mais do que a inteligência, (sem inferir que todo Nerd é mais inteligente, apenas uma constatação generalizada), mas nada disso é novo, as gerações atuais tem alterado boa parte destes preconceitos e hoje parece que ser Nerd já não é tão "ruim" frente ao social.

Eu tive sorte, mais uma vez, e não fui um isolado na escola e no bairro onde morava, mesmo sendo um estereótipo de Nerd até minha fase.... até hoje. Uso óculos desde os 7 anos, sempre fui excelente na escola, era uma criança quieta, os professores adoravam, minha mãe nunca teve problemas de bagunça e reclamações comigo, passava boa parte do dia jogando meu megadrive e brincando no chão da sala, mas não só isso, costumava todas as tardes ir para fora e brincar com a criançada do bairro, pique esconde, pega pega, etc. Talvez por isso não tenha sido um isolado social na infância.

Mais do que isso, tive a sorte de ter grandes e vários amigos, nunca fui introspectivo, o que ajudou muito a criança que continuei sendo durante toda a vida. Amigos e colegas sempre estiverem presentes e ajudaram a moldar meu caráter com companheirismo e amor por cada um deles, inclusive, a maior parte deles mantenho contato até hoje, quase 20 anos depois. Mais um vez, tive sorte, sou um Nerd que sempre esteve rodeado de amigos, mas namoradas... é outra história bem menos constante.

Como grande parte dos adolescentes, em torno dos 13 ou 14 anos, tudo o que eu queria era uma namoradinha. Na sexta série do fundamental estudei em uma turma que tinha muitos repetentes, um dos garotos tinha 18 anos, ele namorava a menina mais linda da sala e eles não faziam cerimônia para trocar beijos durante o intervalo, minha inveja era tamanho que até hoje, mesmo consciente do que acontecia, tenho um ranço desse garoto, ela era minha (MARQUEM ESTA FRASE), não daquele brutamontes... Bem, eu ia continuar essa história, mas não é importante, é só mais uma história de um nerd que se apaixonou pela menina mais bonita da escola, vamos falar de algo mais importante, o Nerd e o relacionamento.

Saltando quase uma década, já na graduação, engajado em festas, churrascos e saídas constantes a barzinhos da cidade, principalmente no conhecido Coração do Estudante, (Um daqueles barzinhos característicos perto da universidade), tive minha primeira namorada de verdade, com sexo envolvido, conhecendo seus amigos e até seus pais, era uma experiência que esperava por tantos anos, já que desde namoricos no ensino médio, nunca havia tido uma relação tão séria, já havia feito sexo, mas apenas de forma muito esporádica, agora era diferente, aquele desejo constante que quase todo mundo tem com a primeira ou o primeiro namorado.

Obviamente, ainda carregando todo o preconceito e o machismo que socialmente fui apresentado durante toda a vida, fui escroto em diversas oportunidades com ela, ELA ERA MINHA, pelo menos era o que eu achava, e não demorou para perceber que não poderia estar mais errado, obviamente ela me deixou, me deixou por outro inclusive, o que foi mais devastador, obviamente sobrevivi, algumas semanas e já haviam outras oportunidades, mas não importa, aquilo me magoou, senti que o "ELA É MINHA" começava a não fazer mais sentido, algumas outras oportunidades de relacionamento e fui aprendendo, fui percebendo o número sem fim de falhas que acreditei serem corretas em um relacionamento, alterei praticamente tudo o que eu imaginava ser o correto, hoje, em um relacionamento estável e saudável, ainda erro, mas reconheço meu papel e tento ser melhor a cada dia, pelo menos acho que venha acertando nestes 4 anos de relacionamento.

É uma pena que isso não se repete na maior parte do cenário Nerd, já que, como mencionei várias vezes, somos, em nossa maioria, extremamente tóxicos, e num ambiente de relacionamento, o ser possessivo de cada um ganha um caráter ainda mais intenso, tornando as relações quase impossíveis em alguns casos.

Vou enumerar alguns exemplo que percebi com amigos, eventos Nerd que organizei e participei, casais que acompanhei todo o relacionamento, além de algumas notícias e histórias de relacionamentos entre amigos que apesar de excluídos a vida toda, quando tiveram uma oportunidade de relacionamento acabaram a destruindo por ciúmes, insegurança e por acreditar no "ELA É MINHA". A maior parte dos relatos serão pelo olhar masculino e heterossexual, apesar de ter contato com outras perspectivas, prefiro manter o meu olhar sobre o que posso refletir pessoalmente, não tomando a voz do outro.

Acompanhando de muito perto estes relacionamentos, não me excluindo de algumas das situações narradas a seguir, percebi que o Nerd geralmente tem a necessidade de "possuir" o outro nos relacionamentos, o discurso é sempre "eu TENHO uma namorada", assim, é fácil perceber quando estas relações começam a ruir de um dia para outro.

Vejamos o exemplo do Nerd padrão, aquele que nunca teve uma namorada e se apaixona desesperadamente por uma menina, ele se aproxima, não sabe como agir, faz muita besteira, mas em alguns casos acaba conseguindo. Deste ponto em diante parece que algo acende nele e o mesmo torna-se possessivo, ciumento em excesso e, como era de se esperar, acaba sendo deixado, o que o deixa, geralmente, em um estado de desespero, ansiedade e, em alguns casos, depressão.

É incontável o número de amigos que passaram por isso, alguns acabam usando deste artifício para começar uma melhora física, vão a academia (Melhora visual), frequentam barzinhos (Melhora Social), e outros buscam ajuda profissional, psicólogos, terapeutas, etc (Melhora Psicológica), mas outros, infelizmente, não possuem a mesma força e acabam mais uma vez isolados. Os que se recuperam destas situações podem aprender com o erro passado e procurar uma relação mais saudável, ou permanecerão babacas por toda a vida.

Alias, babaca é uma palavra que ilustra muito o universo heterosssexual de relacionamento dos Nerds. Parece que a busca por um companheiro nos leva ao extremo, desvinculando tudo o que passamos e imprimindo seu desejo possessivo sobre o outro. Lembro claramente de um amigo que teve centenas de brigas com a namorada por ciúme excessivo, até que ela terminou com ele para ficar com outro rapaz. Lembro que a odiei por ter terminado com meu amigo naquela época, mas hoje sei que ela não precisava se manter em um relacionamento que, em muitos momentos, era abusivo.

Em outro momento um amigo que sofreu rejeição a vida toda, assim que conseguiu uma namorada a traiu consecutivamente, por nenhum motivo específico, apenas porque era possível, cansei de ouvir seus relatos e seu descaso com a namorada que, na época, era seu sonho amoroso, uma pessoa que ele passou quase 1 ano observando, como um perseguidor, alias, nada saudável.

Parece muitas vezes que após a conquista, perdesse o amor, o tesão e tudo o que sobra é o desejo e a crença de que aquilo está certo para sempre, mesmo que abusemos e façamos o outro sofrer. A partir disso, e fazendo referência a tantos exemplos que temos na vida familiar, me questiono qual o motivo do Nerd repetir estes mesmo erros, mesmo que, em muitos casos, tenha passado por algo parecido com seus pais, irmãos, parentes ou até mesmo consigo mesmo em uma oportunidade anterior.

Lembro de uma colega de trabalho, duas décadas mais velha que eu, a qual possui um filho da minha idade, na época 25 anos, ela me contava que ele era um Nerd padrão, contudo, extremamente recluso, muito inteligente, 3 anos antes ele havia entrado em um relacionamento, que durou cerca de 2 anos, a garota o traiu, ele não se recuperou, apesar do apelo da mãe, da ajuda psicológica e das drogas psiquiátricas, ele entrou em uma poderosa depressão, voltou ao isolamento, tentou suicídio em duas oportunidades, mas foi salvo. Isso aconteceu a 7 anos atrás. Em torno de Junho desse ano encontrei os dois na rua, ele parecia ter 50 anos, mesmo com 31, estava acabado, ela também, irreconhecível, preferi não entrar no assunto, nos cumprimentamos, afastamos, fiquei pensando nisso por alguns dias.

As vezes as pessoas não se recuperam de relacionamentos terminados, não aceitam o fim, algumas vezes, na maior parte delas acredito, acham que foi egoísmo do outro lado, mas raramente questionam se não fomos nós os errados e que o sofrimento do outro vale tanto quanto ou até mais do que o nosso em alguns casos, mas é muito difícil olhar para o outro lado quando o sofrimento é nosso, empatia é um exercício que, em alguns casos, é muito difícil de permear.

Outro aspecto muito presente no ambiente Nerd em geral é o machismo, mais uma vez não me eximo, pratiquei e acredito que ainda prático em alguns casos, mas agora consigo mesurar a maior porcentagem deles antes que aconteça, lembro de um caso em específico, estava organizando um evento de Anime aqui na cidade e durante o torneio de Cosplay vi um homem, mais velho que eu na época, literalmente apertar o braço da namorada (menor de idade) para que ela não conversasse com os outros competidores masculinos, ela acatou, abaixou a cabeça e continuou na competição em silêncio, não reagi, me arrependo.

Somos escrotos, não respeitamos o corpo nem o desejo do outro, ignoramos seus sentimentos por preconceito, machismo e ciúmes descontrolado, estou generalizando, eu sei, mas a ideia é sim fazer pensar sobre estas atitudes, um relacionamento não pode ser pautado em violência física, psicológica ou social, não quero ditar regras, não sou profissional da área, mas depois de tantos relatos, de estudar tanto sobre machismo, feminismo, corpo, gênero e afins me vejo como privilegiado o suficiente para criticar as atitudes de meus amigos e de mim mesmo.

Há bons exemplos, é claro, que devem sim ser relatos, casais que conseguem dividir suas atenções e crescer juntos, curtir as mesmas coisas, respeitar o outro, a outros casais onde apenas um dos lados é Nerd, o meu caso na verdade, mas que ambos respeitam os gostos um do outro e compartilham ideias e propostas, que se interessam pelo prazer do outro, tanto nos hobbies como pessoalmente, intimamente.

O que me leva para o último tópico deste texto, sexo.

Sexo é uma experiência individual e, ao mesmo tempo, comunitária. A ideia central é sentir prazer e ajudar o outro a sentir também, cada um do seu jeito, uma tarefa difícil, principalmente em uma sociedade que demoniza tanto o ato e julga tanto as pessoas pela atividade caso ela seja feita fora dos "padrões" da família tradicional brasileira. A demonização ainda é tão intensa que falar sobre sexo é tabu, um tabu que constantemente precisa ser quebrado para que aprendamos a torná-lo algo comum, saudável e viável para todos.

Mas, quando o assunto é sexo e o universo Nerd entramos em uma seara muito complicada, onde o apelo pelo sexo dos sites pornos imprime uma falsa impressão, um desejo por corpos perfeitos, sexo violento e fetiches que podem não ser saudáveis, principalmente psicologicamente (Vide as centenas, eu diria milhares, de categorias como incesto, stepfather, stepdaughter e outros), por apresentar um padrão impossível e inalcançável para as pessoas, além de ilegal.

Eu sei que este tópico não recai unicamente no universo Nerd, fetiches em geral são positivos, mas quanto extrapolam a saúde e causam danos ao outro e a si mesmo é preciso ser repensado. A internet, apesar de todos os avanços que ela trouxe, ajudou a criar um espaço extremamente insalubre no quesito sexo, o acesso tornou-se extremamente mais fácil e com isso a superexposição, existem filósofos e sociólogos melhores que eu para falar sobre isso (Vide Michel Foucault, com "A História da Sexualidade" e Bauman com "Amor Líquido").

Esta superexposição transformou o sexo, principalmente na adolescência, em obrigação social, o não praticante é isolado, colocado em reclusão e excluído das demais atividades. Meninas que se recusam a mandar "nudes" são xingadas e violentadas tanto verbalmente, virtualmente e, como em alguns casos, fisicamente. A violência é tanta que o sexo perdeu seu caráter de prazer para entrar no campo da obrigação.

Quando trazemos este assunto para o mundo nerd, voltamos a ser parias. O não acesso fácil ao sexo "obriga" estes adolescente e adultos a encontrarem na internet uma forma de sentir prazer, anos nestas pesquisas e na masturbação constante com os padrões da internet nos tornam, em alguns casos, propensos a não entender o corpo alheio, a violar os desejos do outro e agir como se estivessem dentro destes vídeos, com toda a violência, a atuação e a insignificancia do corpo alheio.

Assim, as relações amorosas podem ser desastrosas, as experiências podem ser traumáticas e sem uma boa base psicológica efeitos extremamente negativos e duradouros podem ser impressos no psicológico destas pessoas. Os efeitos do sexo "Hollywoodiano" dos sites porno transformam o desejo daqueles que não tem acesso ao sexo em uma repressão que pode tanto impedi-lo de agira durante o sexo, com uma disfunção erétil ou ejaculação precoce, até a total falta de sensibilidade, tratando o parceiro ou a parceira com a mesma agressividade e impessoalidade dos vídeos.

Seja no sexo ou no relacionamento amoroso fora dele, acredito que o Nerd também possui suas vantagens, principalmente quando consegue ter acesso a informação e aprender a tratar o outro de forma saudável e não como foi tratado de forma traumática em algum momento da vida. Posso estar sendo duro nesta crítica, mas acredito que nosso ambiente nerd não é tão saudável quanto deveria ser, mas que pode melhorar muito com as gerações atuais, com o tanto de informação que recebem e com os filtros corretos, acredito e desejo que meu irmão de 12 anos, que logo deve estar entrando em algum namorico ou relacionamento, não sofra nenhum trauma grave, que enfrente as dificuldades e que saia sempre aprendendo algo, por sorte ele tem a mim, a minha mãe e ao meu padrasto, todos do lado dele, eu mais aberto que os dois para estes assuntos, como meu irmão mesmo já veio comentar sobre uma namoradinha, mas eles como pais que apesar da imensa diferença de gerações estão aprendendo a lidar com a modernidade e suas infinitas e constantes modificações.

Eita, tem mensagem da minha namorada, vou lá responder, ainda bem  que não foi no meio do jogo, apesar que eu sempre paro pra responder ela (Choro quando estou online).

Um grande abraço.

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