quinta-feira, 26 de dezembro de 2019

Vamos falar de... (RPG)

Faz treze anos que jogo RPG, pelo menos dez como narrador. Minhas experiências são diversas, como qualquer outro jogador que tenha passado muito tempo nestas aventuras. Experimentei dezenas de sistemas, até mesmo criei alguns, também algo comum entre narradores com muitos anos de experiências.


Consigo lembrar claramente de alguns personagens, principalmente dos meus amigos. Alguns foram extremamente especiais, tanto que retornaram como meus personagens em aventuras posteriores, inclusive com grupos diferentes de jogadores. Lembro especificamente de um que destruiu a própria cidade sem querer, um feiticeiro de nome Tandan, ele costumava abrir grandes portais e em uma falha de cálculo deixou um dragão lançar um meteoro em sua cidade.


Dos meus, recordo de um mago que era muito hábil em batalha, mas possuía quase nenhuma sabedoria, em uma caverna, observando uma imensa rocha se aproximar em alta velocidade, todo senhor de si, gritou: "Esta pedra não pode me acertar, pois posso ficar invisível", a burrice foi tamanha que o resto do grupo precisou se arriscar para me tirar rapidamente da frente da pedra, rimos por alguns minutos, boas memórias.


Alguns momentos foram de tensão e tristeza, eu controlava um invocador, cuja missão principal era recuperar uma capa que seu pai carregou afim de salvar seu vilarejo, muitos anos antes. Em certo momento da aventura, dentro de um santuário, fomos cercados por um poderoso feiticeiro que aparecia de forma recorrente na aventura, tínhamos sido derrotados por uma de suas criaturas e ele perguntou qual o meu maior desejo, respondi que era retornar a capa para o meu povo, ele então retira a capa, a entrega e diz: "Pronto, seu povo a tem". Dando a entender que ele havia aniquilado toda a minha família. Minha aventura terminou ali, desolado. Duas pessoas na mesa choraram neste momento, fui uma delas.


Dizem que RPG é um hobbie que se adquiri muito cedo. Comigo foi ligeiramente tarde, quando eu tinha dezenove anos. Estava em uma fase complicada da vida, nada demais, fui um privilegiado que nunca passou por nenhuma necessidade, mas, white people problems à parte, estava estagnado, não havia passado no vestibular e passei um ano "sabático" sem estudar. Foi bem ruim para minha auto estima, mas nada traumático, apenas incômodo, não durou muito, entrei na faculdade no ano seguinte e foram anos fantásticos.


Contudo, foi neste período sabático que conheci o RPG, por alguns amigos do cursinho pré vestibular, nos juntamos uma tarde de sábado e jogamos por doze horas seguidas Vampiro a Máscara, tudo muito galhofa, regras mal interpretadas, personagens mal desenvolvidos, mas pouco importa, o âmago do RPG estava ali, nos divertimos imensamente por mais de um ano com esse grupo. O mesmo se desfez graças aos horários dos jogadores, mas nunca mais consegui largar a jogatina, para falar a verdade apenas um deles largou.


Em seguida comecei a narrar para o grupo do Tandan, foram cerca de três anos em diversos sistemas, depois outros 2 anos com um grupo muito heterogêneo, todos os estereótipos de jogadores estavam ali, foi onde mais aprendi a narrar, fui jogador por cerca de dois anos depois disso, com um grande amigo que se mudou para minha cidade e já narrava a muito mais tempo que eu, em seguida voltei a narrar e estou até hoje com o mesmo grupo, já experimentamos mais de dez sistemas, tem sido ótimo.


Neste meio tempo encontrei todos os tipos de jogadores e com o tempo fui percebendo como o ambiente pode ser excludente. Jogadores que ignoram regras, burlam o sistema e inventam características para seus personagens não são o grande problema, mas sim aqueles que excluem, que julgam de maneira mal intencionada e deliberadamente causam mal aqueles que encontram no RPG um espaço de tranquilidade e diversão.


O ambiente deste Hobbie é extremamente tóxico e misógino. Sendo o espaço tomado majoritariamente por homens, brancos e heterossexuais, cansei de perceber situações constrangedoras e preconceituosas, infelizmente algumas vezes causadas por mim, demorei para entender o que estava acontecendo e tenho certeza que machuquei alguns amigos com "piadas" que hoje entendo não terem graça alguma.


Mas voltando ao assunto, o ambiente é muito complicado de forma geral, nestes treze anos joguei com apenas quatros mulheres e um homossexual, a comunidade é muito excludente, eu fui muito excludente, mas este jogador em especial me ensinou que o status quo não precisava permanecer, assim fui moldando a pessoas e o narrador que sou hoje, espero que muito melhor e mais receptivo que antes.


A experiência com jogadoras mulheres foi muito breve, seja pela falta de acesso, pelo constante apelo de outros jogadores que demonizam estas mulheres, ou que não as deixam jogar achando que por estarem ali deveriam transar com eles, babaquice sem tamanho, mas acontecia e tenho certeza que ainda acontece com frequência. Não a toa, em cidades com maior numero de jogadores, existem mesas exclusivas para o publico feminino e LGBTQI+, é a comunidade reconhecendo que existe preconceito e encontrando formas de inserir todos neste jogo que faz parte da vida de tantos.

Em alguns momentos eu me pergunto o motivo desta hostilidade. Geralmente o estereotipo do jogador de RPG é o Nerd, o excluído socialmente, então porque tanta violência contra alguém que está, em muitos casos, no mesmo barco? A resposta é simples, a maldita bolha social. Parece que o nerd hostil, ao participar de um grupo, não quer que este pequeno espaço seja quebrado e age contra o diferente, seja por medo, egoísmo ou qualquer outro sentimento.

O motivo desta hostilidade é o preconceito, é não saber e não querer dividir algo que lhe faz bem achando que o outro não tem direito, é olhar para o diferente e pensar que ele não tem espaço ali, mesmo que este mesmo nerd tenha passado por isso durante boa parte da vida.


Apesar desta posição negativa, o ambiente também possui seus prós, a integração é uma das mais importantes na minha opinião. Possibilitar que as pessoas encontrem na imaginação e no companheirismo um lugar aconchegante, libertário e capaz de trazer tantas coisas positivas para o indivíduo e seu crescimento como ser social.


Com as experiências negativas surgem meios de romper os estereótipos, e é com isso que tenho lidado nos últimos anos. Experienciei narrar para jogadores recém introduzidos, completamente novatos, assim como jogadores que tiveram experiências ruins, com preconceito principalmente, e tentei apresentar um modo diferente que entender o RPG. Geralmente as experiências e as respostas destes jogadores é muito positiva, é perceptível a alegria e a surpresa de alguns deles ao entender que RPG não é algo excludente, mas sim algo que constrói uma comunhão entre os jogadores.


Cansei de ver pessoas extremamente tímidas e introvertidas desatarem suas ansiedades e nervosismo ao gesticular, gritar, conversar e ignorar completamente suas dificuldades afim de uma aventura, de uma extrapolação da realidade que os leva junto para um lugar que na vida fora do seu personagem seria difícil alcançar. Já notei casos onde alguns jogadores conseguiram até mesmo ultrapassar estas barreiras e levar para a vida fora do jogo as lições que aprenderam com um valente guerreiro ou um sábio mago que interpretaram.


As experiências são infinitas e cada vez que me reencontro com cada um dos grupos que narrei ou joguei sempre a uma cena a ser relembrada, discutida e o mesmo sentimento retorna a toda com os presentes. Os que olham de fora e não entendem o que equivale o RPG em nossas vidas nos acham completamente loucos; "Que história é essa de um pirata que cortou um tubarão e transformou a vela do navio em uma arma", "Ou onde que alguém saltaria do topo de uma montanha e graças a um 20 "natural" sobreviveu", alias, que tanto falam, quantos número, contas, fichas, dados, lápis, mapas, miniaturas, gritos, o que é isso?". Mas os que sabem nos olham e lembram das próprias histórias, comungando o prazer mútuo de jogar.


Chega, daqui a uma hora é hora de narrar mais uma aventura, meu grupo espera, ainda preciso montar um monstro.


Até mais e quem for se aventurar ainda essa semana, uma ótima sessão.

Nenhum comentário:

Postar um comentário