quinta-feira, 26 de dezembro de 2019

Vamos falar de... (Eventos de Animes)


Em 2007, participei do meu primeiro evento de Anime, um evento pequeno, já extinto, em Curitiba, acredito que o nome era AnimeXD, mas posso estar errado. Neste evento percebi que o universo Otaku/Otome era imenso, rico e que eu acabaria me envolvendo muito mais do que imaginava.

Na verdade, eu praticamente não assistia Animes nessa época, tinha acabado de entrar na Faculdade de Letras e antes disso não tinha o costume de acompanhar animes, mas este evento mudou completamente minha visão, comecei a assistir ferozmente. Mesmo sem muito tempo eu conseguia assistir 2 ou 3 animes completos por semana, foi uma febre absurda, Naruto e Bleach estavam no auge (fui conhecer o melhor anime do mundo alguns meses depois, One Piece :D), eu acompanhava esses e outras dezenas de animes, comecei a juntar tudo o que eu assistia, em poucos meses já tinha mais de 170 animes no meu HD e tinha assistido metade deles.

Não à toa, participar de eventos tornou-se um hobbie que ansiava toda vez que sabia de um deles. Em Maio do ano seguinte fui a outro evento e descobri que existia o Anime Friends. Alguns poucos meses depois, não pensei duas vezes, peguei o dinheiro do meu estágio, guardei pelos meses seguintes, combinei com amigos e estava tudo certo. Porém, todos deram para trás poucas semanas antes do evento. Eu já havia pago a caravana, tinha dinheiro para alimentação e para gastar lá, mas estava sozinho. Contudo, fui assim mesmo, sorte a minha, porque as amizades que construí lá ainda valem cada segundo passado, mesmo que não nos falemos há algum tempo graças à distância e... e à vida em si, mas a amizade permanece.

Quando cheguei em Curitiba para pegar a caravana me senti bem isolado, não havia ninguém no local combinado, cheguei cedo demais, fiquei andando na frente de um Shopping por quase 2 horas até que vi no outro extremo um grupo vestido com um chapéu do Chopper de One Piece. Era minha deixa, aproveitei meu lado extrovertido e fui até eles, perguntei se iam ao evento também. Eles foram extremamente receptivos, eram de Foz do Iguaçu, uma cidade a quase 10 horas de Curitiba. Imediatamente estávamos conversando como se fomos amigos de longa data, perguntaram com quem eu ia, e quando falei que estava sozinho eles me adotaram. Que felicidade absurda é se sentir abraçado assim, sem preconceitos, sem olhares confusos, apenas prazer em compartilhar um hobbie. Um deles ainda ia fazer o cosplay de Sephiroth durante o evento, foi perfeito.

Muito diferente dos receios imaginados, já que pensei que ia passar o evento todo sozinho, estes quatro dias de evento foram fantásticos, construí uma amizade imensa com esse grupo, especialmente um deles, o Jay (o mesmo que fez o cosplay de Sephiroth), chegando a receber a visita dele na minha cidade algumas vezes depois disso (nunca fui à cidade dele, shame on me). Bem, foi um evento fantástico, a proporção do Anime Friends é incomparável e eu estava tão deslumbrado que não conseguia ver nenhum defeito naquilo tudo, estava completamente extasiado pela sensação de excitação que aquilo me proporcionou, ainda hoje fico quando lembro.

Eram centenas de atrações, cosplays, games, em resumo, tudo o que um nerd como eu amava, eu estava em um Éden, em um lugar que poderia visitar com frequência, e foi exatamente o que aconteceu. No ano seguinte já estava tudo pronto, dinheiro em mãos, passagem marcada, o mesmo grupo, nos reunimos mais uma vez, novamente o evento foi fantástico, me diverti como se fosse a primeira vez, era incrível como tudo parecia tão perfeito, e para falar a verdade, era perfeito, pelo menos para mim. 

Infelizmente nos dois anos seguintes eu não fui capaz de participar, o final da faculdade me impediu, mas não tinha mais tanto problema, eu frequentei outros eventos menores e a ideia de fazer um evento local começou a surgir a partir de alguns amigos da minha cidade, ideia esta que abracei dois anos depois de graduado.

Fizemos o PAM (Paranaguá Anime Mangá), um anime que pretendia atrair cerca de 500 pessoas, mas que, para nossa surpresa, teve a rotação de quase 1.500, um número completamente inesperado para uma cidade de médio porte como a nossa, principalmente por nunca ter existido um evento parecido por aqui, nem imaginávamos que haveria tanta gente interessada. Primeiro achamos que este número foi em grande parte pela curiosidade, mas nos anos seguintes isso se provou falso, já que o número de participantes só cresceu. No último que organizei, foram quase 5.000 pessoas participando.

Foi apenas organizando eventos e tendo frequentado vários deles (Eu calculo que devo ter ido em cerca de 25 em 10 anos) que comecei a perceber que aquele deslumbre do começo escondia coisas não tão legais quanto imaginei. O primeiro momento de quebra da magia foi quando, no Anime Friends de 2012, me aproximei de um Cosplayer de Squall (Final Fantasy VIII) e fui muito mal tratado. Pedi um foto, como todos deviam estar fazendo durante o evento e ele, de forma muito emburrada e mal educada, tirou-a. Eu imagino que ele podia estar estressado, que era final do evento e poderia ter algum problema pessoal para agir daquela forma. Fiquei triste, admito, mas tudo bem, não ia estragar toda a minha experiência por um exemplo ruim.

Mas isso se repetiu muitas vezes com o tempo, o endeusamento dos cosplayers e dos organizadores de eventos foi sendo quebrado com atitudes egoístas, grosseiras e muitas vezes preconceituosas, não comigo de forma específica, mas era fácil perceber tais atitudes de maneira geral. Lembro uma vez que uma menina fora dos padrões sociais de beleza se aproximou de um garoto que fazia cosplay de Natsu (Fairytail) e o mesmo não quis nem encostar nela para tirar uma selfie. Foi clara a tristeza da menina, de forma imediata ela fechou o rosto, tirou a foto e saiu, acredito que muito triste, de perto do cosplayer, enquanto ele, sorrindo e aparentemente feliz, abraçava outras meninas com prazer logo em seguida.

Cosplayer, alias, é um cenário muito cruel. Se você não beira a perfeição você é considerado um pária, é humilhado e rechaçado pelos grandes grupos de cosplayers competitivos. Se você não segue e concorda cegamente com outros você é isolado, não recebe parcerias e os prêmios vão para os mesmos que te humilham. Sem generalizar, há torneios muito sérios e que levam em consideração quesitos técnicos, mas há aqueles que servem apenas para inflar o ego dos participantes que, em uma parcela considerável, é muito preconceituosa. 

Alias, preconceito parece ser constante no ambiente. Recentemente, surgiu na mídia um vídeo de um garoto que, ao descobrir ter sido o campeão de um torneio de Cosplay, humilhou os outros competidores com gestos de baixo tom. Por sorte, tudo foi gravado e ele foi punido de forma exemplar, mas este é apenas um caso em centenas de injustiças.

Não gosto da atmosfera competitiva dos cosplayers, pelo menos não olhando de fora, já que nunca fiz cosplay. Imagino o quão disputados e agressivos são os torneios, já fui juiz de algumas competições menores, mas parece que o egoismo do cenário ultrapassa em certa quantidade o saudável. Tenho um amigo de Salvador que estava julgando um evento pequeno, a premiação era ínfima, apenas ilustrativa, em que um cosplayer profissional não aceitou uma das colocações dos juízes e entrou com uma solicitação de recontagem, a mesma foi realizada, ele venceu o torneio e mesmo assim processou o evento que, com os custos de advogado e com o susto, foi cancelado.

Eu só tenho a visão do meu amigo da história, então não posso julgar certo ou errado, mas, conhecendo a índole dele, acreditei no relato e achei um exagero. Bom, exemplos de situações constrangedoras e preconceituosas são constantes e parecem estar aumentado, dada a liberdade com que algumas pessoas expõe seu ódio desde a última eleição presidencial em nosso país.

Voltando aos eventos em si, há cerca de 6 anos parei de organizar eventos e reduzi consideravelmente minha participação também. Suporto esta escolha por não ser mais o publico alvo, percebi que eles se afastavam cada vez mais do que eu aprendi a gostar, focando mais no público majoritário, o que recai no JPOP. Animes e mangas se tornaram secundários em eventos POP. Neste caso, não julgo os organizadores, eles precisam ter público, e o público deles envelheceu rápido, eu envelheci rápido e tudo se tornou muito longe do que gosto, os eventos foram perdendo a graça, eu não reconheço mais o público, mas isso faz parte da vida, envelhecemos e as mídias se adaptam, não fico triste, aproveitei o máximo que consegui enquanto o evento era focado nos meus gostos, é hora da nova geração.

Eu também apresentei muitos eventos, nos primeiros que participei ficava impressionado com o palco, o AnimeQuiz, a apresentação de Cosplayers, o diálogo com o público, tudo era ótimo, eu queria estar lá em cima, então, quando organizamos os primeiros eventos da cidade, assumi o posto e apresentei cerca de 7 eventos no palco e como organizador. Eu amava. 

Com o tempo, o palco foi perdendo seu interesse com o publico e senti uma redução considerável de pessoas que ficavam ali, precisava começar a procurar pessoas para participar dos jogos. Por sorte tive alguns "fãs" durante este período, pessoas que se espelharam em mim ao ponto de, quando parei de organizar os eventos, um deles assumir e continuar por mais 5 anos a organizar o PAM, mas agora com outro nome.

Não quero parecer presunçoso, mas acabei influenciando algumas pessoas neste universo. Durante os eventos foi comum jovens em seus 13-20 anos se aproximarem para perguntar detalhes do evento, como fazer, o que eu assistia. Diria que fui um Influencer Otaku local, hoje ninguém me conhece, como deve ser, o meta é outro, não entendo nada de Kpop, mas tudo bem, fiz minha parte e sempre que vejo alguém com uma camisa de anime aqui na cidade gosto de acreditar que tem alguma coisa minha, direta ou indiretamente, seja por conversas ou pelo alcance que o evento acabou possuindo.

No meu trabalho, algumas vezes aconteceu de me reconhecerem. Eu sei que não é nada, mas me sinto orgulhoso, sinto que cumpri bem o papel que escolhi quando quis organizar estes eventos. Levar um pedacinho de toda a minha empolgação e a minha paixão para quem nem imaginava ou sequer teria acesso a este nível de entretenimento, mesmo que em uma escala reduzida.

Hoje o mesmo evento que ajudei a criar está em sua terceira versão, um amigo assumiu o comando e ele continua crescendo, inclusive fui convidado a voltar a apresentar. Acho que vou acabar aceitando, mas acho que não é mais um público que vai me receber tão bem. Talvez, no fundo, eu tenha medo de ser rejeitado, talvez apenas ache que passou o meu tempo, não sei, mas acho que vou acabar aceitando, veremos, será em maio do ano que vem.

Aliás, acabei de lembrar, tem algo que, se não me incomoda, pelo menos me causa um desconforto: a sexualização exagerada nestes eventos. No começo eu não entendia ou não percebia, talvez fosse apenas ingênuo demais, mas acontecem coisas nestes eventos que escapam um pouco do aceitável. Lembro em um evento que, durante a apresentação de Cosplay, uma participante deliberadamente sacudiu tanto seu corpo tentando parecer uma enfermeira zumbi de Silent Hill que um de seus seios saltou da roupa e ela não se preocupou em recolocar. Achei que poderia ter sido um deslize, que ela não tinha percebido, mas em outro evento, alguns meses depois em outra cidade próxima, ela fez a mesma coisa.

Em outro momento, desta vez em um evento de porte nacional, uma das cabines, comandada e "cuidada" por um dos organizadores, recebeu uma denúncia grave em que adolescentes estavam fazendo sexo em pequenas salas escuras, em um evento que deveria ser Family Friendly, pelo menos era o que dizia em sua formulação e no site para os pais e familiares que deixavam seus filhos participarem sozinhos.

Não quero parecer puritano, quem leu meus posts anteriores sabe que não tenho problema algum com sexo, pelo contrário, acho extremamente saudável falar sobre, mas estes lugares são frequentados por crianças, pessoas com dificuldade de entrosamento social, introspectivas, e que, em alguns casos, podem não receber bem a situação e se retrair, tornando a experiência negativa.

Se o sexo não fosse tratado com tanto Tabu em nossa sociedade, se entendêssemos a importância da educação sexual na escola nada disso precisaria ser combatido, mas a política da "família tradicional" impede que estes diálogos avancem, impede que as pessoas tenha acesso a algo tão saudável e importante quanto ao sexo, principalmente na idade do público alvo destes eventos, entre 10 e 25 anos.

Depois de tantos anos participando, organizando e apresentando eventos de Anime, fico com um sentimento de que, apesar de ter ajudado a construir uma cultura deste porte na minha cidade, ainda fiquei devendo muito, me abstive demais em situações que deveria ter interferido, principalmente no preconceito disfarçado de opinião de alguns colegas. Ao mesmo tempo acho que ajudei mais do que atrapalhei e com este convite para voltar ao cenário, agora mais consciente do todo, acho que ainda posso ajudar.

Ok, eu estava vendo aqui e parece que ano que vem a banda que toca uma das aberturas de One Piece pode participar do Anime Friends, acho que vou reservar minha caravana.

Um grande abraço e nos vemos nos eventos da vida.

P.S. A foto desta postagem é do nosso outdoor para o primeiro PAM :D

Vamos falar de... (Namoro)


Insegurança.

Talvez este seja o sentimento mais presente na vida amorosa dx Nerd. Ele pode partir de diversos ângulos; seja pelo corpo, pelo psicológico ou pelo social, todos eles atrapalham muito o processo de entendimento em relação ao outro, em grande parte das vezes torna-se fator decisivo para um término.

A relação interpessoal, principalmente o sexo, torna-se um tabu quando a maior parte da nossa vida somos tachados como párias frente a uma sociedade que exalta o corpo mais do que a inteligência, (sem inferir que todo Nerd é mais inteligente, apenas uma constatação generalizada), mas nada disso é novo, as gerações atuais tem alterado boa parte destes preconceitos e hoje parece que ser Nerd já não é tão "ruim" frente ao social.

Eu tive sorte, mais uma vez, e não fui um isolado na escola e no bairro onde morava, mesmo sendo um estereótipo de Nerd até minha fase.... até hoje. Uso óculos desde os 7 anos, sempre fui excelente na escola, era uma criança quieta, os professores adoravam, minha mãe nunca teve problemas de bagunça e reclamações comigo, passava boa parte do dia jogando meu megadrive e brincando no chão da sala, mas não só isso, costumava todas as tardes ir para fora e brincar com a criançada do bairro, pique esconde, pega pega, etc. Talvez por isso não tenha sido um isolado social na infância.

Mais do que isso, tive a sorte de ter grandes e vários amigos, nunca fui introspectivo, o que ajudou muito a criança que continuei sendo durante toda a vida. Amigos e colegas sempre estiverem presentes e ajudaram a moldar meu caráter com companheirismo e amor por cada um deles, inclusive, a maior parte deles mantenho contato até hoje, quase 20 anos depois. Mais um vez, tive sorte, sou um Nerd que sempre esteve rodeado de amigos, mas namoradas... é outra história bem menos constante.

Como grande parte dos adolescentes, em torno dos 13 ou 14 anos, tudo o que eu queria era uma namoradinha. Na sexta série do fundamental estudei em uma turma que tinha muitos repetentes, um dos garotos tinha 18 anos, ele namorava a menina mais linda da sala e eles não faziam cerimônia para trocar beijos durante o intervalo, minha inveja era tamanho que até hoje, mesmo consciente do que acontecia, tenho um ranço desse garoto, ela era minha (MARQUEM ESTA FRASE), não daquele brutamontes... Bem, eu ia continuar essa história, mas não é importante, é só mais uma história de um nerd que se apaixonou pela menina mais bonita da escola, vamos falar de algo mais importante, o Nerd e o relacionamento.

Saltando quase uma década, já na graduação, engajado em festas, churrascos e saídas constantes a barzinhos da cidade, principalmente no conhecido Coração do Estudante, (Um daqueles barzinhos característicos perto da universidade), tive minha primeira namorada de verdade, com sexo envolvido, conhecendo seus amigos e até seus pais, era uma experiência que esperava por tantos anos, já que desde namoricos no ensino médio, nunca havia tido uma relação tão séria, já havia feito sexo, mas apenas de forma muito esporádica, agora era diferente, aquele desejo constante que quase todo mundo tem com a primeira ou o primeiro namorado.

Obviamente, ainda carregando todo o preconceito e o machismo que socialmente fui apresentado durante toda a vida, fui escroto em diversas oportunidades com ela, ELA ERA MINHA, pelo menos era o que eu achava, e não demorou para perceber que não poderia estar mais errado, obviamente ela me deixou, me deixou por outro inclusive, o que foi mais devastador, obviamente sobrevivi, algumas semanas e já haviam outras oportunidades, mas não importa, aquilo me magoou, senti que o "ELA É MINHA" começava a não fazer mais sentido, algumas outras oportunidades de relacionamento e fui aprendendo, fui percebendo o número sem fim de falhas que acreditei serem corretas em um relacionamento, alterei praticamente tudo o que eu imaginava ser o correto, hoje, em um relacionamento estável e saudável, ainda erro, mas reconheço meu papel e tento ser melhor a cada dia, pelo menos acho que venha acertando nestes 4 anos de relacionamento.

É uma pena que isso não se repete na maior parte do cenário Nerd, já que, como mencionei várias vezes, somos, em nossa maioria, extremamente tóxicos, e num ambiente de relacionamento, o ser possessivo de cada um ganha um caráter ainda mais intenso, tornando as relações quase impossíveis em alguns casos.

Vou enumerar alguns exemplo que percebi com amigos, eventos Nerd que organizei e participei, casais que acompanhei todo o relacionamento, além de algumas notícias e histórias de relacionamentos entre amigos que apesar de excluídos a vida toda, quando tiveram uma oportunidade de relacionamento acabaram a destruindo por ciúmes, insegurança e por acreditar no "ELA É MINHA". A maior parte dos relatos serão pelo olhar masculino e heterossexual, apesar de ter contato com outras perspectivas, prefiro manter o meu olhar sobre o que posso refletir pessoalmente, não tomando a voz do outro.

Acompanhando de muito perto estes relacionamentos, não me excluindo de algumas das situações narradas a seguir, percebi que o Nerd geralmente tem a necessidade de "possuir" o outro nos relacionamentos, o discurso é sempre "eu TENHO uma namorada", assim, é fácil perceber quando estas relações começam a ruir de um dia para outro.

Vejamos o exemplo do Nerd padrão, aquele que nunca teve uma namorada e se apaixona desesperadamente por uma menina, ele se aproxima, não sabe como agir, faz muita besteira, mas em alguns casos acaba conseguindo. Deste ponto em diante parece que algo acende nele e o mesmo torna-se possessivo, ciumento em excesso e, como era de se esperar, acaba sendo deixado, o que o deixa, geralmente, em um estado de desespero, ansiedade e, em alguns casos, depressão.

É incontável o número de amigos que passaram por isso, alguns acabam usando deste artifício para começar uma melhora física, vão a academia (Melhora visual), frequentam barzinhos (Melhora Social), e outros buscam ajuda profissional, psicólogos, terapeutas, etc (Melhora Psicológica), mas outros, infelizmente, não possuem a mesma força e acabam mais uma vez isolados. Os que se recuperam destas situações podem aprender com o erro passado e procurar uma relação mais saudável, ou permanecerão babacas por toda a vida.

Alias, babaca é uma palavra que ilustra muito o universo heterosssexual de relacionamento dos Nerds. Parece que a busca por um companheiro nos leva ao extremo, desvinculando tudo o que passamos e imprimindo seu desejo possessivo sobre o outro. Lembro claramente de um amigo que teve centenas de brigas com a namorada por ciúme excessivo, até que ela terminou com ele para ficar com outro rapaz. Lembro que a odiei por ter terminado com meu amigo naquela época, mas hoje sei que ela não precisava se manter em um relacionamento que, em muitos momentos, era abusivo.

Em outro momento um amigo que sofreu rejeição a vida toda, assim que conseguiu uma namorada a traiu consecutivamente, por nenhum motivo específico, apenas porque era possível, cansei de ouvir seus relatos e seu descaso com a namorada que, na época, era seu sonho amoroso, uma pessoa que ele passou quase 1 ano observando, como um perseguidor, alias, nada saudável.

Parece muitas vezes que após a conquista, perdesse o amor, o tesão e tudo o que sobra é o desejo e a crença de que aquilo está certo para sempre, mesmo que abusemos e façamos o outro sofrer. A partir disso, e fazendo referência a tantos exemplos que temos na vida familiar, me questiono qual o motivo do Nerd repetir estes mesmo erros, mesmo que, em muitos casos, tenha passado por algo parecido com seus pais, irmãos, parentes ou até mesmo consigo mesmo em uma oportunidade anterior.

Lembro de uma colega de trabalho, duas décadas mais velha que eu, a qual possui um filho da minha idade, na época 25 anos, ela me contava que ele era um Nerd padrão, contudo, extremamente recluso, muito inteligente, 3 anos antes ele havia entrado em um relacionamento, que durou cerca de 2 anos, a garota o traiu, ele não se recuperou, apesar do apelo da mãe, da ajuda psicológica e das drogas psiquiátricas, ele entrou em uma poderosa depressão, voltou ao isolamento, tentou suicídio em duas oportunidades, mas foi salvo. Isso aconteceu a 7 anos atrás. Em torno de Junho desse ano encontrei os dois na rua, ele parecia ter 50 anos, mesmo com 31, estava acabado, ela também, irreconhecível, preferi não entrar no assunto, nos cumprimentamos, afastamos, fiquei pensando nisso por alguns dias.

As vezes as pessoas não se recuperam de relacionamentos terminados, não aceitam o fim, algumas vezes, na maior parte delas acredito, acham que foi egoísmo do outro lado, mas raramente questionam se não fomos nós os errados e que o sofrimento do outro vale tanto quanto ou até mais do que o nosso em alguns casos, mas é muito difícil olhar para o outro lado quando o sofrimento é nosso, empatia é um exercício que, em alguns casos, é muito difícil de permear.

Outro aspecto muito presente no ambiente Nerd em geral é o machismo, mais uma vez não me eximo, pratiquei e acredito que ainda prático em alguns casos, mas agora consigo mesurar a maior porcentagem deles antes que aconteça, lembro de um caso em específico, estava organizando um evento de Anime aqui na cidade e durante o torneio de Cosplay vi um homem, mais velho que eu na época, literalmente apertar o braço da namorada (menor de idade) para que ela não conversasse com os outros competidores masculinos, ela acatou, abaixou a cabeça e continuou na competição em silêncio, não reagi, me arrependo.

Somos escrotos, não respeitamos o corpo nem o desejo do outro, ignoramos seus sentimentos por preconceito, machismo e ciúmes descontrolado, estou generalizando, eu sei, mas a ideia é sim fazer pensar sobre estas atitudes, um relacionamento não pode ser pautado em violência física, psicológica ou social, não quero ditar regras, não sou profissional da área, mas depois de tantos relatos, de estudar tanto sobre machismo, feminismo, corpo, gênero e afins me vejo como privilegiado o suficiente para criticar as atitudes de meus amigos e de mim mesmo.

Há bons exemplos, é claro, que devem sim ser relatos, casais que conseguem dividir suas atenções e crescer juntos, curtir as mesmas coisas, respeitar o outro, a outros casais onde apenas um dos lados é Nerd, o meu caso na verdade, mas que ambos respeitam os gostos um do outro e compartilham ideias e propostas, que se interessam pelo prazer do outro, tanto nos hobbies como pessoalmente, intimamente.

O que me leva para o último tópico deste texto, sexo.

Sexo é uma experiência individual e, ao mesmo tempo, comunitária. A ideia central é sentir prazer e ajudar o outro a sentir também, cada um do seu jeito, uma tarefa difícil, principalmente em uma sociedade que demoniza tanto o ato e julga tanto as pessoas pela atividade caso ela seja feita fora dos "padrões" da família tradicional brasileira. A demonização ainda é tão intensa que falar sobre sexo é tabu, um tabu que constantemente precisa ser quebrado para que aprendamos a torná-lo algo comum, saudável e viável para todos.

Mas, quando o assunto é sexo e o universo Nerd entramos em uma seara muito complicada, onde o apelo pelo sexo dos sites pornos imprime uma falsa impressão, um desejo por corpos perfeitos, sexo violento e fetiches que podem não ser saudáveis, principalmente psicologicamente (Vide as centenas, eu diria milhares, de categorias como incesto, stepfather, stepdaughter e outros), por apresentar um padrão impossível e inalcançável para as pessoas, além de ilegal.

Eu sei que este tópico não recai unicamente no universo Nerd, fetiches em geral são positivos, mas quanto extrapolam a saúde e causam danos ao outro e a si mesmo é preciso ser repensado. A internet, apesar de todos os avanços que ela trouxe, ajudou a criar um espaço extremamente insalubre no quesito sexo, o acesso tornou-se extremamente mais fácil e com isso a superexposição, existem filósofos e sociólogos melhores que eu para falar sobre isso (Vide Michel Foucault, com "A História da Sexualidade" e Bauman com "Amor Líquido").

Esta superexposição transformou o sexo, principalmente na adolescência, em obrigação social, o não praticante é isolado, colocado em reclusão e excluído das demais atividades. Meninas que se recusam a mandar "nudes" são xingadas e violentadas tanto verbalmente, virtualmente e, como em alguns casos, fisicamente. A violência é tanta que o sexo perdeu seu caráter de prazer para entrar no campo da obrigação.

Quando trazemos este assunto para o mundo nerd, voltamos a ser parias. O não acesso fácil ao sexo "obriga" estes adolescente e adultos a encontrarem na internet uma forma de sentir prazer, anos nestas pesquisas e na masturbação constante com os padrões da internet nos tornam, em alguns casos, propensos a não entender o corpo alheio, a violar os desejos do outro e agir como se estivessem dentro destes vídeos, com toda a violência, a atuação e a insignificancia do corpo alheio.

Assim, as relações amorosas podem ser desastrosas, as experiências podem ser traumáticas e sem uma boa base psicológica efeitos extremamente negativos e duradouros podem ser impressos no psicológico destas pessoas. Os efeitos do sexo "Hollywoodiano" dos sites porno transformam o desejo daqueles que não tem acesso ao sexo em uma repressão que pode tanto impedi-lo de agira durante o sexo, com uma disfunção erétil ou ejaculação precoce, até a total falta de sensibilidade, tratando o parceiro ou a parceira com a mesma agressividade e impessoalidade dos vídeos.

Seja no sexo ou no relacionamento amoroso fora dele, acredito que o Nerd também possui suas vantagens, principalmente quando consegue ter acesso a informação e aprender a tratar o outro de forma saudável e não como foi tratado de forma traumática em algum momento da vida. Posso estar sendo duro nesta crítica, mas acredito que nosso ambiente nerd não é tão saudável quanto deveria ser, mas que pode melhorar muito com as gerações atuais, com o tanto de informação que recebem e com os filtros corretos, acredito e desejo que meu irmão de 12 anos, que logo deve estar entrando em algum namorico ou relacionamento, não sofra nenhum trauma grave, que enfrente as dificuldades e que saia sempre aprendendo algo, por sorte ele tem a mim, a minha mãe e ao meu padrasto, todos do lado dele, eu mais aberto que os dois para estes assuntos, como meu irmão mesmo já veio comentar sobre uma namoradinha, mas eles como pais que apesar da imensa diferença de gerações estão aprendendo a lidar com a modernidade e suas infinitas e constantes modificações.

Eita, tem mensagem da minha namorada, vou lá responder, ainda bem  que não foi no meio do jogo, apesar que eu sempre paro pra responder ela (Choro quando estou online).

Um grande abraço.

Vamos falar de... (VideoGame)


Eu sempre falo que não lembro nada da minha vida antes de possuir um controle de videogame em mãos. Tento recordar minha infância prévia aos 5 anos (Momento em que tive meu primeiro contato com um megadrive) mas toda a minha memória parece estar atada aquele momento mágico de contato com o console.

Por sorte tive acesso a jogos muito cedo, minha geração foi a desbravadora dos 16 bits, uma geração de jogadores que cansou de implorar para os pais para alugar uma fita na sexta-feira para poder ficar até segunda, crianças que ainda hoje (Em torno de 30 anos) amam relembrar estes momentos.

Engraçado, sem nostalgia excessiva, mas eu lembro de sair da escola, da primeira série do fundamental, e minha mãe me levar para uma locadora de videogames perto de casa, me deixando sozinho com um monte de crianças, adolescentes e adultos, sem receio, um pouco imprudente eu diria, mas era outra época. Era a locadora do Flávio e da Fran, por coincidência hoje eu trabalho com o filho deles.

Lembro que esta era a locadora do bairro, todos iam lá. O Playstation tinha acabado de ser lançado, minha memória trás dezenas de pessoas em pé enquanto Flávio jogava Resident Evil, vidrados nos zumbis, monstros e nos enigmas do jogo, todos sedentos por um momento de ação em 3D, completamente novo para nós. Eu adorava, estava entre estas dezenas de crianças, adolescentes e adultos, cada vitória de Flávio era uma vitória de todos, vibrávamos e nos divertíamos, uma memória incrível e que guardo com muito carinho.

Curioso, estes dias estava conversando com minha mãe exatamente sobre isso, ela horrorizada dizendo que não acreditava como podia ter sido tão condescendente, me deixando sozinho no meio de adultos com apenas 7 anos, mas por sorte nunca aconteceu nada de ruim, a locadora era bem perto de casa, conhecíamos todo mundo, mas existia um ponto de drogas uma quadra dali. Na verdade, anos depois, descobri que alguns traficantes jogavam ali, pensando agora, isso era bom, eles protegiam o lugar do jeito deles.

Pena que esta "segurança" não pode mais ser vivida, não estou falando que antes era melhor, mais seguro ou nada assim, não sou um saudosista extremo, mas não tínhamos acesso a tanta informação, minha mãe tinha 26 anos, não tinha noção alguma do mundo, para ela tudo era seguro naquele bairro que ela foi criada desde que nasceu, eram tempos inocentes e inconsequentes.

Falo isso porque tenho um irmão que começou a jogar também muito cedo, em torno dos 8 anos, agora ele tem 12. Meu irmão cresceu em outro bairro, mais próximo do centro, a rua onde moramos é central, muito movimento, os vizinhos são semi desconhecidos, a locadora mais próxima (Não que ele vá nela) fica a mais de um Km, mas ele nunca foi lá, eu a conheço de, literalmente, quase duas décadas atrás.

Meu irmão iniciou no Xbox One, com MOBAs, BATTLE ROYALES, GAMEPASS e todas as vantagens da internet de alta velocidade, ele ganhou seu primeiro videogame e já possuía mais de 200 jogos, durante todo o período que eu tive meu megadrive tive apenas 4 fitas, Sonic e Knuckles, Sunsite Riders, Mortal Kombat 3 e Golden Axe, o resto foi tudo alugado durante os 4 anos que ele esteve comigo, substituído por um Playstation em 1998.

Mas voltando ao assunto do meu irmão e da segurança, ele nunca precisou sair de casa para jogar, seu acesso foi pleno desde o primeiro dia, minha mãe não precisou se preocupar em levá-lo a locadora, a comprar jogos físicos, a buscá-los horas depois, como aconteceu centenas de vezes comigo. Ele joga também muito mais do que eu, possui mais interação, dezenas de amigos online, se diverte e fica irritado, acompanha streams e canais de Youtube que o ajudam em tudo, o invejo e ao mesmo tempo não, comigo eram revistas compradas nas bancas, livros de dicas e cheats, meses para descobrir que um jogo foi lançado.

Estes dias, enquanto conversava com minha mãe sobre este período, perguntei para ela como ela se sentia agora, com toda a segurança de casa para ele jogar a vontade, sem receios e preocupações, ela me respondeu, agora sim de forma muito saudosista: - "Eram outros tempos, hoje eu não deixaria você ou ele sozinhos entre adultos". Concordo com minha mãe, agora ela ouve, vê e tem informação plena e constante em seu celular, não que ela seja uma usuária constante de tecnologia, mas o básico ela sabe mexer, o que já a assusta muito. Diversas vezes ela corre até mim com uma notícia escabrosa, perguntando se é verdade já que, para ela, eu "domino" a internet, procuro a notícia, mostro para ela a fonte original e ela sai aliviada quando descobre que é uma FakeNews, alias, isso ajudou muito para que ano passado minha mãe e boa parte da minha família entendesse as ações do atual presidente do Brasil, por sorte nenhum de nós votou nele.

Divaguei um pouco, voltando ao texto, recordo ainda que nesta primeira geração, fora da locadora, eu jogava muito sozinho, sempre tive amigos, mas parecia que a experiência pessoal era mais interessante, talvez por isso ainda hoje jogo muito pouco online. Sentar no chão e ligar meu megadrive era uma sensação única, joguei o mesmo jogo centenas de vezes, os mesmos 4 jogos, sabia de cor cada um deles, não me cansava, o fator replay era impressionante, isso ou apenas não tinha opções a mais. Meu irmão, por outro lado, só consegue jogar o mesmo jogos muitas vezes se for um MOBA ou um BATTLE ROYALE, não estou criticando, mas é verdade.

A maior comparação que faço entre eu como jogador e meu irmão é que, apesar de 20 anos de diferença e 5 gerações de consoles, é que ambos amamos isso demais, eu vejo o prazer que ele tem quando vem me contar sobre a nova arma de um jogo, sobre os detalhes de uma atualização, sobre sua vitória em determinado game, compartilho o prazer que ele sente nessas conversas e sei que ele me entende talvez tanto quanto eu o entendo quando seu olhar brilha ao ver que eu entendo a felicidade que ele está sentindo e vice versa.

Mesmo que meu irmão não tenha precisado sair de casa para jogar eu sei que sua geração não perdeu muita coisa, pelo contrário, ganhou muito mais do que a minha geração, sou agradecido por isso, sempre quis que ele crescesse como um jogador, eu sei o quanto isso fez bem para mim e queria que ele compartilhasse, quase um sentimento paternal eu diria, mas considerando a diferença de idade eu não acho que isso seja tão estranho. Não possuo filhos, nem pretendo para falar a verdade, mas sinto no meu irmão um carinho a mais, um carinho de amigos, uma comunhão fraternal e levemente paternal que tenho muito gosto em manter.

Este texto foi menos ácido, todos deveriam ser venenosos, com alguma crítica no meio, mas enquanto escrevia lembrei que games nunca me deixaram triste, a não ser quando não podia tê-los, pelo contrário, sempre me senti feliz e tenho convicção que praticamente todos os jogadores compartilham desse sentimento de alegria e prazer que os videogames nos proporcionam, principalmente nosso primeiro contato, como comparei aqui. Por isso, deixei a acidez de lado para dar lugar a alegria, ao companheirismo e para relatar que indiferente a distancia de gerações os games sempre nos unem.

Droga... Voltaram meu pagamento do Remake de FF7, acho que meu cartão estourou, vou lá parcelar, um abraço.

Vamos falar de... (Magic the Gathering)


Entrei no universo de Magic no bloco de Theros, seis anos atrás. Quando conheci o cardgame, não tinha noção da proporção e da importância dele para a cultura Pop em geral, minha única preocupação era montar diversos decks divertidos e passar algumas horas duelando com meu amigos. Era bem divertido, não deixou de ser, mas tornou-se mais competitivo do que eu imaginei.


Já havia tido experiência com cardgames anteriormente, joguei muito Yu-Gi-Oh com as cartinhas falsas que vendiam nas bancas, depois joguei muito online, chegando até a participar de torneios, nenhuma premiação, apenas meu nick no topo do Ranking de um site de clans, era extremamente competitivo, talvez por isso Magic me capturou de forma tão forte desde o começo.


Quando comecei a jogar Magic passava tardes e finais de semana inteiros na loja Nerd da cidade, montando decks com milhares de cartas sem grande valor, procurando uma raridade que ajudasse a melhorar meu deck controle (azul é vida). Hoje eu sei que meus decks não eram competitivos, mas a busca pelas cartas, a montagem dos decks e o sentimento de disputa me deixam apaixonado, virei algumas noites montando decks online, gastei razoavelmente durante este período e participei de alguns torneios locais, até ganhei dois deles, foi muito empolgante.


Infelizmente, as obrigações da vida me afastaram do cenário. Precisei me dedicar quase exclusivamente ao mestrado e deixei o cardgame de lado por dois anos. Fui obrigado, era isso ou me ferrar em algumas disciplinas. Escolhi o estudo, mas, com o fim do mestrado, veio o desejo do retorno. Neste meio tempo, não parei de assistir vídeos e streams dos torneios grandes, me tornei fã de alguns jogadores profissionais, acompanhava discussões, conheci os formatos a fundo, conhecia todo o metagame, sabia de cabeça o efeito de milhares de cartas, conhecia cada minúcia dos principais decks, com o tempo fui me tornando um quase fanático pelo jogo, chegando a tirar qualquer segundo de sobra do dia para ver um vídeo novo.


Cerca de três anos atrás a empresa que é detentora dos direitos de MTG lançou o Magic Arena, um jogo online “gratuito” que me introduziu novamente como jogador. Eu estava realizado, estou realizado na verdade, já que jogo praticamente todos os dias. Em resumo, amo Magic, amo o cenário, os competidores, os streamers, mas sei que nem tudo são Tarmogoyfs.


Depois de me inserir no cenário com maior ênfase, descobri vários podres da comunidade. Como em meu primeiro post, descobri que o ambiente de Magic é muito tóxico e preconceituoso, aliás, isso vale para todo o ambiente nerd, mas isso fica para um próximo texto. Assim como no cenário do RPG, o machismo e o preconceito são pontos constantes das mesas de jogos e dos ambientes de disputa. Recentemente descobri que um famoso competidor perdeu seu patrocínio e está impossibilitado de jogar torneios oficiais de uma das duas principais empresas que patrocinam torneios de magic, por ter assediado uma companheira de trabalho.


E exemplos referentes a assédio são tão comuns que não vou me estender neste assunto, deixo apenas a minha posição de desagrado e apoio às vítimas. Por sorte, quando entrei no ambiente de magic, já possuía mais consciência do meu papel nesta sociedade violenta e não praticava mais estes atos, pelo menos não de forma voluntária como a maioria, contudo, não me eximo da culpa, faço parte do meio e sei que nem sempre as coisas saem como imagino antes de falar ou agir.


Jogadoras profissionais como Gaby Spartz, Jessica Estephan e Melissa DeTora já devem estar cansadas de relatar eventos que lhes causaram desde desconforto até terror, estão cercadas constantemente da violência institucional que as segrega, por isso cada vitória destas jogadoras deve ser vista como uma vitória contra estas mesmas violências, mostrando a cada dia a importância do combate ao preconceito.


É claro que nem todo o ambiente é ruim.Como eu disse anteriormente, um jogador profissional foi punido recentemente de forma exemplar por conta do machismo. Outro caso interessante é do jogador profissional e streamer Jeff Hoogland, o qual, em suas transmissões, faz também um papel político, criticando severamente o governo estadunidense atual e suas políticas de exclusão. O Streamer também aproveita seu espaço para apontar e dialogar sobre os males da comunidade, citando inclusive o jogador que apontei anteriormente no caso da punição.


Assim como no ambiente físico, o cenário virtual é também recheado de preconceito com as streamers mulheres. Elas são tachadas dos mais diversos adjetivos apelativos, os quais são desnecessários enumerar, todos sabemos o tipo de tratamento que elas recebem unicamente por seu sexo ou orientação sexual, levando-as, em alguns casos, a desistir do trabalho pelo bem de sua saúde. A situação é triste, real e parece não estar melhorando, infelizmente.


Curioso é não perceber nada disso com streamers masculinos. Com relação a eles, a situação torna-se “séria”, discussões acaloradas sobre o sistema, as jogadas erradas (famosos Punts) e as previsões de cada lançamento. Em raríssimos casos percebi diálogos violentos com streamers masculinos, parece que todo o ódio do Nerd preconceituoso só existe quando a mulher entra em seu microcosmos e recupera seu lugar.


Com todas estas situações me sinto confortável em descrever o universo de Magic The Gathering como, no mínimo, problemático. Não discutirei sobre os problemas do sistema em si, deixarei para outro momento, mas não posso deixar de notar como todas estas situações negativas mancham o cardgame, principalmente para novos jogadores.


Aliás, conhecer o sistema é como entrar em um ambiente hostil. Não sei se o motivo central é a competitividade do jogo, o público em geral ou a falta de empatia para com o iniciante, mas percebi como pode ser negativa a experiência de ser um jogador novato. Não à toa uma parcela considerável de jogadores prefere manter a jogatina apenas entre amigos, o famoso mesão.


Por sorte o sistema está migrando lentamente para o online, e isso é positivo em muitos aspectos, principalmente pela iniciativa fairtalk do Magic Arena (os jogadores só podem enviar mensagens programadas, impedindo o diálogo violento), mas mesmo assim os players encontraram formas de praticar uma violência passiva, como o stall, quando o jogador faz jogadas muito lentas propositalmente afim do adversário ficar irritado, o GoodGame antecipado, e outros, iniciativas que tornam algumas partidas realmente irritantes.


Por sorte, estes jogadores são minoria, o Magic Arena vem conversando muito com a comunidade e isso é extremamente positivo, principalmente pelo feedback dos jogadores na página principal. Acredito que em torno de 5 anos o magic se tornará quase exclusivamente online, já que tanto o custo para os jogadores como para a empresa são muito menores e o acesso é exponencialmente maior, apesar de excluir comunidades sem um acesso razoavelmente rápido à internet.


No todo, sinto-me muito feliz jogando, minha experiências como homem, branco, hétero e de classe média no cenário é regular, não sofro nenhum preconceito, tenho muito amigos que jogam e gostam de jogar comigo, nos eventos e torneios sou recebido sem nenhum alarde ou desconfiança. Isso me incomoda muito, pois sei que não é assim com a maioria, sei que ainda existe muita segregação e, no que me tange como agente conciliador, procuro fazer o meu melhor. Eu sei que minha posição de privilégio não permite que seja mais, contudo, procuro sempre questionar os preconceitos e articular os diálogo, mas em terra de falantes compulsivos, muitas vezes os ouvidos não funcionam, falo muito para o ar, sou apontado como o chato esquerdão, mas não recuo, pelo menos não nos últimos anos.


Gostaria que a comunidade fosse mais receptiva, sei que não é, que vai demorar muito a ser, se é que um dia será, mesmo assim amo demais o jogo, deu até vontade de montar um Azorius Control no Pionner, vou lá, um abraço e mais empatia, comunidade de Magic The Gathering! Muito mais empatia!

Vamos falar de... (RPG)

Faz treze anos que jogo RPG, pelo menos dez como narrador. Minhas experiências são diversas, como qualquer outro jogador que tenha passado muito tempo nestas aventuras. Experimentei dezenas de sistemas, até mesmo criei alguns, também algo comum entre narradores com muitos anos de experiências.


Consigo lembrar claramente de alguns personagens, principalmente dos meus amigos. Alguns foram extremamente especiais, tanto que retornaram como meus personagens em aventuras posteriores, inclusive com grupos diferentes de jogadores. Lembro especificamente de um que destruiu a própria cidade sem querer, um feiticeiro de nome Tandan, ele costumava abrir grandes portais e em uma falha de cálculo deixou um dragão lançar um meteoro em sua cidade.


Dos meus, recordo de um mago que era muito hábil em batalha, mas possuía quase nenhuma sabedoria, em uma caverna, observando uma imensa rocha se aproximar em alta velocidade, todo senhor de si, gritou: "Esta pedra não pode me acertar, pois posso ficar invisível", a burrice foi tamanha que o resto do grupo precisou se arriscar para me tirar rapidamente da frente da pedra, rimos por alguns minutos, boas memórias.


Alguns momentos foram de tensão e tristeza, eu controlava um invocador, cuja missão principal era recuperar uma capa que seu pai carregou afim de salvar seu vilarejo, muitos anos antes. Em certo momento da aventura, dentro de um santuário, fomos cercados por um poderoso feiticeiro que aparecia de forma recorrente na aventura, tínhamos sido derrotados por uma de suas criaturas e ele perguntou qual o meu maior desejo, respondi que era retornar a capa para o meu povo, ele então retira a capa, a entrega e diz: "Pronto, seu povo a tem". Dando a entender que ele havia aniquilado toda a minha família. Minha aventura terminou ali, desolado. Duas pessoas na mesa choraram neste momento, fui uma delas.


Dizem que RPG é um hobbie que se adquiri muito cedo. Comigo foi ligeiramente tarde, quando eu tinha dezenove anos. Estava em uma fase complicada da vida, nada demais, fui um privilegiado que nunca passou por nenhuma necessidade, mas, white people problems à parte, estava estagnado, não havia passado no vestibular e passei um ano "sabático" sem estudar. Foi bem ruim para minha auto estima, mas nada traumático, apenas incômodo, não durou muito, entrei na faculdade no ano seguinte e foram anos fantásticos.


Contudo, foi neste período sabático que conheci o RPG, por alguns amigos do cursinho pré vestibular, nos juntamos uma tarde de sábado e jogamos por doze horas seguidas Vampiro a Máscara, tudo muito galhofa, regras mal interpretadas, personagens mal desenvolvidos, mas pouco importa, o âmago do RPG estava ali, nos divertimos imensamente por mais de um ano com esse grupo. O mesmo se desfez graças aos horários dos jogadores, mas nunca mais consegui largar a jogatina, para falar a verdade apenas um deles largou.


Em seguida comecei a narrar para o grupo do Tandan, foram cerca de três anos em diversos sistemas, depois outros 2 anos com um grupo muito heterogêneo, todos os estereótipos de jogadores estavam ali, foi onde mais aprendi a narrar, fui jogador por cerca de dois anos depois disso, com um grande amigo que se mudou para minha cidade e já narrava a muito mais tempo que eu, em seguida voltei a narrar e estou até hoje com o mesmo grupo, já experimentamos mais de dez sistemas, tem sido ótimo.


Neste meio tempo encontrei todos os tipos de jogadores e com o tempo fui percebendo como o ambiente pode ser excludente. Jogadores que ignoram regras, burlam o sistema e inventam características para seus personagens não são o grande problema, mas sim aqueles que excluem, que julgam de maneira mal intencionada e deliberadamente causam mal aqueles que encontram no RPG um espaço de tranquilidade e diversão.


O ambiente deste Hobbie é extremamente tóxico e misógino. Sendo o espaço tomado majoritariamente por homens, brancos e heterossexuais, cansei de perceber situações constrangedoras e preconceituosas, infelizmente algumas vezes causadas por mim, demorei para entender o que estava acontecendo e tenho certeza que machuquei alguns amigos com "piadas" que hoje entendo não terem graça alguma.


Mas voltando ao assunto, o ambiente é muito complicado de forma geral, nestes treze anos joguei com apenas quatros mulheres e um homossexual, a comunidade é muito excludente, eu fui muito excludente, mas este jogador em especial me ensinou que o status quo não precisava permanecer, assim fui moldando a pessoas e o narrador que sou hoje, espero que muito melhor e mais receptivo que antes.


A experiência com jogadoras mulheres foi muito breve, seja pela falta de acesso, pelo constante apelo de outros jogadores que demonizam estas mulheres, ou que não as deixam jogar achando que por estarem ali deveriam transar com eles, babaquice sem tamanho, mas acontecia e tenho certeza que ainda acontece com frequência. Não a toa, em cidades com maior numero de jogadores, existem mesas exclusivas para o publico feminino e LGBTQI+, é a comunidade reconhecendo que existe preconceito e encontrando formas de inserir todos neste jogo que faz parte da vida de tantos.

Em alguns momentos eu me pergunto o motivo desta hostilidade. Geralmente o estereotipo do jogador de RPG é o Nerd, o excluído socialmente, então porque tanta violência contra alguém que está, em muitos casos, no mesmo barco? A resposta é simples, a maldita bolha social. Parece que o nerd hostil, ao participar de um grupo, não quer que este pequeno espaço seja quebrado e age contra o diferente, seja por medo, egoísmo ou qualquer outro sentimento.

O motivo desta hostilidade é o preconceito, é não saber e não querer dividir algo que lhe faz bem achando que o outro não tem direito, é olhar para o diferente e pensar que ele não tem espaço ali, mesmo que este mesmo nerd tenha passado por isso durante boa parte da vida.


Apesar desta posição negativa, o ambiente também possui seus prós, a integração é uma das mais importantes na minha opinião. Possibilitar que as pessoas encontrem na imaginação e no companheirismo um lugar aconchegante, libertário e capaz de trazer tantas coisas positivas para o indivíduo e seu crescimento como ser social.


Com as experiências negativas surgem meios de romper os estereótipos, e é com isso que tenho lidado nos últimos anos. Experienciei narrar para jogadores recém introduzidos, completamente novatos, assim como jogadores que tiveram experiências ruins, com preconceito principalmente, e tentei apresentar um modo diferente que entender o RPG. Geralmente as experiências e as respostas destes jogadores é muito positiva, é perceptível a alegria e a surpresa de alguns deles ao entender que RPG não é algo excludente, mas sim algo que constrói uma comunhão entre os jogadores.


Cansei de ver pessoas extremamente tímidas e introvertidas desatarem suas ansiedades e nervosismo ao gesticular, gritar, conversar e ignorar completamente suas dificuldades afim de uma aventura, de uma extrapolação da realidade que os leva junto para um lugar que na vida fora do seu personagem seria difícil alcançar. Já notei casos onde alguns jogadores conseguiram até mesmo ultrapassar estas barreiras e levar para a vida fora do jogo as lições que aprenderam com um valente guerreiro ou um sábio mago que interpretaram.


As experiências são infinitas e cada vez que me reencontro com cada um dos grupos que narrei ou joguei sempre a uma cena a ser relembrada, discutida e o mesmo sentimento retorna a toda com os presentes. Os que olham de fora e não entendem o que equivale o RPG em nossas vidas nos acham completamente loucos; "Que história é essa de um pirata que cortou um tubarão e transformou a vela do navio em uma arma", "Ou onde que alguém saltaria do topo de uma montanha e graças a um 20 "natural" sobreviveu", alias, que tanto falam, quantos número, contas, fichas, dados, lápis, mapas, miniaturas, gritos, o que é isso?". Mas os que sabem nos olham e lembram das próprias histórias, comungando o prazer mútuo de jogar.


Chega, daqui a uma hora é hora de narrar mais uma aventura, meu grupo espera, ainda preciso montar um monstro.


Até mais e quem for se aventurar ainda essa semana, uma ótima sessão.