Em 2007, participei do meu primeiro evento de Anime, um evento pequeno, já extinto, em Curitiba, acredito que o nome era AnimeXD, mas posso estar errado. Neste evento percebi que o universo Otaku/Otome era imenso, rico e que eu acabaria me envolvendo muito mais do que imaginava.
Na verdade, eu praticamente não assistia Animes nessa época, tinha acabado de entrar na Faculdade de Letras e antes disso não tinha o costume de acompanhar animes, mas este evento mudou completamente minha visão, comecei a assistir ferozmente. Mesmo sem muito tempo eu conseguia assistir 2 ou 3 animes completos por semana, foi uma febre absurda, Naruto e Bleach estavam no auge (fui conhecer o melhor anime do mundo alguns meses depois, One Piece :D), eu acompanhava esses e outras dezenas de animes, comecei a juntar tudo o que eu assistia, em poucos meses já tinha mais de 170 animes no meu HD e tinha assistido metade deles.
Não à toa, participar de eventos tornou-se um hobbie que ansiava toda vez que sabia de um deles. Em Maio do ano seguinte fui a outro evento e descobri que existia o Anime Friends. Alguns poucos meses depois, não pensei duas vezes, peguei o dinheiro do meu estágio, guardei pelos meses seguintes, combinei com amigos e estava tudo certo. Porém, todos deram para trás poucas semanas antes do evento. Eu já havia pago a caravana, tinha dinheiro para alimentação e para gastar lá, mas estava sozinho. Contudo, fui assim mesmo, sorte a minha, porque as amizades que construí lá ainda valem cada segundo passado, mesmo que não nos falemos há algum tempo graças à distância e... e à vida em si, mas a amizade permanece.
Quando cheguei em Curitiba para pegar a caravana me senti bem isolado, não havia ninguém no local combinado, cheguei cedo demais, fiquei andando na frente de um Shopping por quase 2 horas até que vi no outro extremo um grupo vestido com um chapéu do Chopper de One Piece. Era minha deixa, aproveitei meu lado extrovertido e fui até eles, perguntei se iam ao evento também. Eles foram extremamente receptivos, eram de Foz do Iguaçu, uma cidade a quase 10 horas de Curitiba. Imediatamente estávamos conversando como se fomos amigos de longa data, perguntaram com quem eu ia, e quando falei que estava sozinho eles me adotaram. Que felicidade absurda é se sentir abraçado assim, sem preconceitos, sem olhares confusos, apenas prazer em compartilhar um hobbie. Um deles ainda ia fazer o cosplay de Sephiroth durante o evento, foi perfeito.
Muito diferente dos receios imaginados, já que pensei que ia passar o evento todo sozinho, estes quatro dias de evento foram fantásticos, construí uma amizade imensa com esse grupo, especialmente um deles, o Jay (o mesmo que fez o cosplay de Sephiroth), chegando a receber a visita dele na minha cidade algumas vezes depois disso (nunca fui à cidade dele, shame on me). Bem, foi um evento fantástico, a proporção do Anime Friends é incomparável e eu estava tão deslumbrado que não conseguia ver nenhum defeito naquilo tudo, estava completamente extasiado pela sensação de excitação que aquilo me proporcionou, ainda hoje fico quando lembro.
Eram centenas de atrações, cosplays, games, em resumo, tudo o que um nerd como eu amava, eu estava em um Éden, em um lugar que poderia visitar com frequência, e foi exatamente o que aconteceu. No ano seguinte já estava tudo pronto, dinheiro em mãos, passagem marcada, o mesmo grupo, nos reunimos mais uma vez, novamente o evento foi fantástico, me diverti como se fosse a primeira vez, era incrível como tudo parecia tão perfeito, e para falar a verdade, era perfeito, pelo menos para mim.
Infelizmente nos dois anos seguintes eu não fui capaz de participar, o final da faculdade me impediu, mas não tinha mais tanto problema, eu frequentei outros eventos menores e a ideia de fazer um evento local começou a surgir a partir de alguns amigos da minha cidade, ideia esta que abracei dois anos depois de graduado.
Fizemos o PAM (Paranaguá Anime Mangá), um anime que pretendia atrair cerca de 500 pessoas, mas que, para nossa surpresa, teve a rotação de quase 1.500, um número completamente inesperado para uma cidade de médio porte como a nossa, principalmente por nunca ter existido um evento parecido por aqui, nem imaginávamos que haveria tanta gente interessada. Primeiro achamos que este número foi em grande parte pela curiosidade, mas nos anos seguintes isso se provou falso, já que o número de participantes só cresceu. No último que organizei, foram quase 5.000 pessoas participando.
Foi apenas organizando eventos e tendo frequentado vários deles (Eu calculo que devo ter ido em cerca de 25 em 10 anos) que comecei a perceber que aquele deslumbre do começo escondia coisas não tão legais quanto imaginei. O primeiro momento de quebra da magia foi quando, no Anime Friends de 2012, me aproximei de um Cosplayer de Squall (Final Fantasy VIII) e fui muito mal tratado. Pedi um foto, como todos deviam estar fazendo durante o evento e ele, de forma muito emburrada e mal educada, tirou-a. Eu imagino que ele podia estar estressado, que era final do evento e poderia ter algum problema pessoal para agir daquela forma. Fiquei triste, admito, mas tudo bem, não ia estragar toda a minha experiência por um exemplo ruim.
Mas isso se repetiu muitas vezes com o tempo, o endeusamento dos cosplayers e dos organizadores de eventos foi sendo quebrado com atitudes egoístas, grosseiras e muitas vezes preconceituosas, não comigo de forma específica, mas era fácil perceber tais atitudes de maneira geral. Lembro uma vez que uma menina fora dos padrões sociais de beleza se aproximou de um garoto que fazia cosplay de Natsu (Fairytail) e o mesmo não quis nem encostar nela para tirar uma selfie. Foi clara a tristeza da menina, de forma imediata ela fechou o rosto, tirou a foto e saiu, acredito que muito triste, de perto do cosplayer, enquanto ele, sorrindo e aparentemente feliz, abraçava outras meninas com prazer logo em seguida.
Cosplayer, alias, é um cenário muito cruel. Se você não beira a perfeição você é considerado um pária, é humilhado e rechaçado pelos grandes grupos de cosplayers competitivos. Se você não segue e concorda cegamente com outros você é isolado, não recebe parcerias e os prêmios vão para os mesmos que te humilham. Sem generalizar, há torneios muito sérios e que levam em consideração quesitos técnicos, mas há aqueles que servem apenas para inflar o ego dos participantes que, em uma parcela considerável, é muito preconceituosa.
Alias, preconceito parece ser constante no ambiente. Recentemente, surgiu na mídia um vídeo de um garoto que, ao descobrir ter sido o campeão de um torneio de Cosplay, humilhou os outros competidores com gestos de baixo tom. Por sorte, tudo foi gravado e ele foi punido de forma exemplar, mas este é apenas um caso em centenas de injustiças.
Não gosto da atmosfera competitiva dos cosplayers, pelo menos não olhando de fora, já que nunca fiz cosplay. Imagino o quão disputados e agressivos são os torneios, já fui juiz de algumas competições menores, mas parece que o egoismo do cenário ultrapassa em certa quantidade o saudável. Tenho um amigo de Salvador que estava julgando um evento pequeno, a premiação era ínfima, apenas ilustrativa, em que um cosplayer profissional não aceitou uma das colocações dos juízes e entrou com uma solicitação de recontagem, a mesma foi realizada, ele venceu o torneio e mesmo assim processou o evento que, com os custos de advogado e com o susto, foi cancelado.
Eu só tenho a visão do meu amigo da história, então não posso julgar certo ou errado, mas, conhecendo a índole dele, acreditei no relato e achei um exagero. Bom, exemplos de situações constrangedoras e preconceituosas são constantes e parecem estar aumentado, dada a liberdade com que algumas pessoas expõe seu ódio desde a última eleição presidencial em nosso país.
Voltando aos eventos em si, há cerca de 6 anos parei de organizar eventos e reduzi consideravelmente minha participação também. Suporto esta escolha por não ser mais o publico alvo, percebi que eles se afastavam cada vez mais do que eu aprendi a gostar, focando mais no público majoritário, o que recai no JPOP. Animes e mangas se tornaram secundários em eventos POP. Neste caso, não julgo os organizadores, eles precisam ter público, e o público deles envelheceu rápido, eu envelheci rápido e tudo se tornou muito longe do que gosto, os eventos foram perdendo a graça, eu não reconheço mais o público, mas isso faz parte da vida, envelhecemos e as mídias se adaptam, não fico triste, aproveitei o máximo que consegui enquanto o evento era focado nos meus gostos, é hora da nova geração.
Eu também apresentei muitos eventos, nos primeiros que participei ficava impressionado com o palco, o AnimeQuiz, a apresentação de Cosplayers, o diálogo com o público, tudo era ótimo, eu queria estar lá em cima, então, quando organizamos os primeiros eventos da cidade, assumi o posto e apresentei cerca de 7 eventos no palco e como organizador. Eu amava.
Com o tempo, o palco foi perdendo seu interesse com o publico e senti uma redução considerável de pessoas que ficavam ali, precisava começar a procurar pessoas para participar dos jogos. Por sorte tive alguns "fãs" durante este período, pessoas que se espelharam em mim ao ponto de, quando parei de organizar os eventos, um deles assumir e continuar por mais 5 anos a organizar o PAM, mas agora com outro nome.
Não quero parecer presunçoso, mas acabei influenciando algumas pessoas neste universo. Durante os eventos foi comum jovens em seus 13-20 anos se aproximarem para perguntar detalhes do evento, como fazer, o que eu assistia. Diria que fui um Influencer Otaku local, hoje ninguém me conhece, como deve ser, o meta é outro, não entendo nada de Kpop, mas tudo bem, fiz minha parte e sempre que vejo alguém com uma camisa de anime aqui na cidade gosto de acreditar que tem alguma coisa minha, direta ou indiretamente, seja por conversas ou pelo alcance que o evento acabou possuindo.
No meu trabalho, algumas vezes aconteceu de me reconhecerem. Eu sei que não é nada, mas me sinto orgulhoso, sinto que cumpri bem o papel que escolhi quando quis organizar estes eventos. Levar um pedacinho de toda a minha empolgação e a minha paixão para quem nem imaginava ou sequer teria acesso a este nível de entretenimento, mesmo que em uma escala reduzida.
Hoje o mesmo evento que ajudei a criar está em sua terceira versão, um amigo assumiu o comando e ele continua crescendo, inclusive fui convidado a voltar a apresentar. Acho que vou acabar aceitando, mas acho que não é mais um público que vai me receber tão bem. Talvez, no fundo, eu tenha medo de ser rejeitado, talvez apenas ache que passou o meu tempo, não sei, mas acho que vou acabar aceitando, veremos, será em maio do ano que vem.
Aliás, acabei de lembrar, tem algo que, se não me incomoda, pelo menos me causa um desconforto: a sexualização exagerada nestes eventos. No começo eu não entendia ou não percebia, talvez fosse apenas ingênuo demais, mas acontecem coisas nestes eventos que escapam um pouco do aceitável. Lembro em um evento que, durante a apresentação de Cosplay, uma participante deliberadamente sacudiu tanto seu corpo tentando parecer uma enfermeira zumbi de Silent Hill que um de seus seios saltou da roupa e ela não se preocupou em recolocar. Achei que poderia ter sido um deslize, que ela não tinha percebido, mas em outro evento, alguns meses depois em outra cidade próxima, ela fez a mesma coisa.
Em outro momento, desta vez em um evento de porte nacional, uma das cabines, comandada e "cuidada" por um dos organizadores, recebeu uma denúncia grave em que adolescentes estavam fazendo sexo em pequenas salas escuras, em um evento que deveria ser Family Friendly, pelo menos era o que dizia em sua formulação e no site para os pais e familiares que deixavam seus filhos participarem sozinhos.
Não quero parecer puritano, quem leu meus posts anteriores sabe que não tenho problema algum com sexo, pelo contrário, acho extremamente saudável falar sobre, mas estes lugares são frequentados por crianças, pessoas com dificuldade de entrosamento social, introspectivas, e que, em alguns casos, podem não receber bem a situação e se retrair, tornando a experiência negativa.
Se o sexo não fosse tratado com tanto Tabu em nossa sociedade, se entendêssemos a importância da educação sexual na escola nada disso precisaria ser combatido, mas a política da "família tradicional" impede que estes diálogos avancem, impede que as pessoas tenha acesso a algo tão saudável e importante quanto ao sexo, principalmente na idade do público alvo destes eventos, entre 10 e 25 anos.
Depois de tantos anos participando, organizando e apresentando eventos de Anime, fico com um sentimento de que, apesar de ter ajudado a construir uma cultura deste porte na minha cidade, ainda fiquei devendo muito, me abstive demais em situações que deveria ter interferido, principalmente no preconceito disfarçado de opinião de alguns colegas. Ao mesmo tempo acho que ajudei mais do que atrapalhei e com este convite para voltar ao cenário, agora mais consciente do todo, acho que ainda posso ajudar.
Ok, eu estava vendo aqui e parece que ano que vem a banda que toca uma das aberturas de One Piece pode participar do Anime Friends, acho que vou reservar minha caravana.
Um grande abraço e nos vemos nos eventos da vida.
P.S. A foto desta postagem é do nosso outdoor para o primeiro PAM :D



