quinta-feira, 26 de dezembro de 2019

Vamos falar de... (Magic the Gathering)


Entrei no universo de Magic no bloco de Theros, seis anos atrás. Quando conheci o cardgame, não tinha noção da proporção e da importância dele para a cultura Pop em geral, minha única preocupação era montar diversos decks divertidos e passar algumas horas duelando com meu amigos. Era bem divertido, não deixou de ser, mas tornou-se mais competitivo do que eu imaginei.


Já havia tido experiência com cardgames anteriormente, joguei muito Yu-Gi-Oh com as cartinhas falsas que vendiam nas bancas, depois joguei muito online, chegando até a participar de torneios, nenhuma premiação, apenas meu nick no topo do Ranking de um site de clans, era extremamente competitivo, talvez por isso Magic me capturou de forma tão forte desde o começo.


Quando comecei a jogar Magic passava tardes e finais de semana inteiros na loja Nerd da cidade, montando decks com milhares de cartas sem grande valor, procurando uma raridade que ajudasse a melhorar meu deck controle (azul é vida). Hoje eu sei que meus decks não eram competitivos, mas a busca pelas cartas, a montagem dos decks e o sentimento de disputa me deixam apaixonado, virei algumas noites montando decks online, gastei razoavelmente durante este período e participei de alguns torneios locais, até ganhei dois deles, foi muito empolgante.


Infelizmente, as obrigações da vida me afastaram do cenário. Precisei me dedicar quase exclusivamente ao mestrado e deixei o cardgame de lado por dois anos. Fui obrigado, era isso ou me ferrar em algumas disciplinas. Escolhi o estudo, mas, com o fim do mestrado, veio o desejo do retorno. Neste meio tempo, não parei de assistir vídeos e streams dos torneios grandes, me tornei fã de alguns jogadores profissionais, acompanhava discussões, conheci os formatos a fundo, conhecia todo o metagame, sabia de cabeça o efeito de milhares de cartas, conhecia cada minúcia dos principais decks, com o tempo fui me tornando um quase fanático pelo jogo, chegando a tirar qualquer segundo de sobra do dia para ver um vídeo novo.


Cerca de três anos atrás a empresa que é detentora dos direitos de MTG lançou o Magic Arena, um jogo online “gratuito” que me introduziu novamente como jogador. Eu estava realizado, estou realizado na verdade, já que jogo praticamente todos os dias. Em resumo, amo Magic, amo o cenário, os competidores, os streamers, mas sei que nem tudo são Tarmogoyfs.


Depois de me inserir no cenário com maior ênfase, descobri vários podres da comunidade. Como em meu primeiro post, descobri que o ambiente de Magic é muito tóxico e preconceituoso, aliás, isso vale para todo o ambiente nerd, mas isso fica para um próximo texto. Assim como no cenário do RPG, o machismo e o preconceito são pontos constantes das mesas de jogos e dos ambientes de disputa. Recentemente descobri que um famoso competidor perdeu seu patrocínio e está impossibilitado de jogar torneios oficiais de uma das duas principais empresas que patrocinam torneios de magic, por ter assediado uma companheira de trabalho.


E exemplos referentes a assédio são tão comuns que não vou me estender neste assunto, deixo apenas a minha posição de desagrado e apoio às vítimas. Por sorte, quando entrei no ambiente de magic, já possuía mais consciência do meu papel nesta sociedade violenta e não praticava mais estes atos, pelo menos não de forma voluntária como a maioria, contudo, não me eximo da culpa, faço parte do meio e sei que nem sempre as coisas saem como imagino antes de falar ou agir.


Jogadoras profissionais como Gaby Spartz, Jessica Estephan e Melissa DeTora já devem estar cansadas de relatar eventos que lhes causaram desde desconforto até terror, estão cercadas constantemente da violência institucional que as segrega, por isso cada vitória destas jogadoras deve ser vista como uma vitória contra estas mesmas violências, mostrando a cada dia a importância do combate ao preconceito.


É claro que nem todo o ambiente é ruim.Como eu disse anteriormente, um jogador profissional foi punido recentemente de forma exemplar por conta do machismo. Outro caso interessante é do jogador profissional e streamer Jeff Hoogland, o qual, em suas transmissões, faz também um papel político, criticando severamente o governo estadunidense atual e suas políticas de exclusão. O Streamer também aproveita seu espaço para apontar e dialogar sobre os males da comunidade, citando inclusive o jogador que apontei anteriormente no caso da punição.


Assim como no ambiente físico, o cenário virtual é também recheado de preconceito com as streamers mulheres. Elas são tachadas dos mais diversos adjetivos apelativos, os quais são desnecessários enumerar, todos sabemos o tipo de tratamento que elas recebem unicamente por seu sexo ou orientação sexual, levando-as, em alguns casos, a desistir do trabalho pelo bem de sua saúde. A situação é triste, real e parece não estar melhorando, infelizmente.


Curioso é não perceber nada disso com streamers masculinos. Com relação a eles, a situação torna-se “séria”, discussões acaloradas sobre o sistema, as jogadas erradas (famosos Punts) e as previsões de cada lançamento. Em raríssimos casos percebi diálogos violentos com streamers masculinos, parece que todo o ódio do Nerd preconceituoso só existe quando a mulher entra em seu microcosmos e recupera seu lugar.


Com todas estas situações me sinto confortável em descrever o universo de Magic The Gathering como, no mínimo, problemático. Não discutirei sobre os problemas do sistema em si, deixarei para outro momento, mas não posso deixar de notar como todas estas situações negativas mancham o cardgame, principalmente para novos jogadores.


Aliás, conhecer o sistema é como entrar em um ambiente hostil. Não sei se o motivo central é a competitividade do jogo, o público em geral ou a falta de empatia para com o iniciante, mas percebi como pode ser negativa a experiência de ser um jogador novato. Não à toa uma parcela considerável de jogadores prefere manter a jogatina apenas entre amigos, o famoso mesão.


Por sorte o sistema está migrando lentamente para o online, e isso é positivo em muitos aspectos, principalmente pela iniciativa fairtalk do Magic Arena (os jogadores só podem enviar mensagens programadas, impedindo o diálogo violento), mas mesmo assim os players encontraram formas de praticar uma violência passiva, como o stall, quando o jogador faz jogadas muito lentas propositalmente afim do adversário ficar irritado, o GoodGame antecipado, e outros, iniciativas que tornam algumas partidas realmente irritantes.


Por sorte, estes jogadores são minoria, o Magic Arena vem conversando muito com a comunidade e isso é extremamente positivo, principalmente pelo feedback dos jogadores na página principal. Acredito que em torno de 5 anos o magic se tornará quase exclusivamente online, já que tanto o custo para os jogadores como para a empresa são muito menores e o acesso é exponencialmente maior, apesar de excluir comunidades sem um acesso razoavelmente rápido à internet.


No todo, sinto-me muito feliz jogando, minha experiências como homem, branco, hétero e de classe média no cenário é regular, não sofro nenhum preconceito, tenho muito amigos que jogam e gostam de jogar comigo, nos eventos e torneios sou recebido sem nenhum alarde ou desconfiança. Isso me incomoda muito, pois sei que não é assim com a maioria, sei que ainda existe muita segregação e, no que me tange como agente conciliador, procuro fazer o meu melhor. Eu sei que minha posição de privilégio não permite que seja mais, contudo, procuro sempre questionar os preconceitos e articular os diálogo, mas em terra de falantes compulsivos, muitas vezes os ouvidos não funcionam, falo muito para o ar, sou apontado como o chato esquerdão, mas não recuo, pelo menos não nos últimos anos.


Gostaria que a comunidade fosse mais receptiva, sei que não é, que vai demorar muito a ser, se é que um dia será, mesmo assim amo demais o jogo, deu até vontade de montar um Azorius Control no Pionner, vou lá, um abraço e mais empatia, comunidade de Magic The Gathering! Muito mais empatia!

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